domingo, 17 de junho de 2012

AEILIJ PAULISTA: Um livro do qual gostei muito


Junho foi a vez do livro O Balé da Chuva participar do ciclo promovido pelo blog da AEILIJ PAULISTA, com a publicação de um suplemento de resenhas produzidas por Regina Sormani e Marciano Vasques.
Autora: Marilza Conceição
Ilustradora: Alessandra Tozi
AEILIJ PAULISTA: Um livro do qual gostei muito
Ilustrações de Alessandra Tozi

sexta-feira, 1 de junho de 2012

VICE VERSA



Amigos!
Participam do Vice-Versa de junho os escritores Marciano Vasques (SP) e a coordenadora da regional  da AEILIJ do Paraná, Marilza Conceição.
Agradeço a participação. Um abraço a todos!
Regina Sormani

Respostas de Marilza Conceição
1. Poderia nos expor, Marilza, a Pedagogia do Imaginário? De que forma ela atua no crescimento alfabetizador da criança em sua preparação para o mundo?
R.: O imaginário humano está presente em todos os aprendizados. Desde os discursos mais sérios fazemos uso da imaginação.
As crianças fazem isso naturalmente, quando o sapato vira um carrinho, a escova de cabelos é a princesa e a gaveta, seu castelo. E se ressentem quando a escola quase proíbe estas manifestações de brincadeiras espontâneas e imaginativas, porque o ensino é rígido e deve cumprir currículos pensados para as faixas etárias definidas.
Em minha prática pedagógica, a literatura é o fundamento do método de ensino. Na roda de conversa são compartilhadas histórias literárias e discussões sobre o cotidiano. E estas conversas são inspiradoras de poesia, música e desenhos. É a construção de um repertório que prepara as crianças para o aprendizado dos demais conteúdos que estão postos. Para construir conceitos, valores morais e principalmente poesia, é necessário um  repertório que aqueça a imaginação, ainda novinha em folha, com perguntas e argumentos.
As crianças constroem palavras novas quando conjugam verbos usando as terminações que lhes parecem adequadas. Intuitivamente denominam com palavras substitutas, as existentes no vocabulário que todos falam, porque é do que precisam para situar-se no universo.  
Para exemplificar a prática que descrevo, nada melhor do que um relato de experiência, que está publicado no meu blog:
http://marilzaconceicao.blogspot.com.br/ em 06.06.2008 com o título: Quando os professores pensam em poesia, e no site  da Rede Municipal de Ensino de Curitiba
http://www.cidadedoconhecimento.org.br/cidadedoconhecimento/index.php?portal=520&cod_not=17907
Certo dia, fomos ao cantinho mágico das histórias, que fica em qualquer lugar que o desejo mandar. Basta imaginar o tapete de Sherazade e viajar até às nuvens, estejamos à sombra da árvore ou na do muro do prédio da escola. A roda participava concentrada na história que eu contava, quando sentimos o vento mais forte e frio e as nuvens acinzentadas pairando acima de nossas cabeças. Gordas  gotas precipitaram-se e eu disse às crianças: “Sintam!” Surpresos me responderam: “Pode?”, “venham”. E corremos de braços abertos pela grama.
Surpreendentemente, uma nuvem de libélulas subiu da touceira de mato alto. Foi um pula, pula, uma gritaria e a chuva caiu mais forte. Nos abrigamos no pátio coberto para apreciá-la, vendo as gotas espocando na calçada. Nenhum dicionário poderia definir melhor a palavra “espocar”, pois pudemos senti-la.
Voltamos em um burburinho sorridente para a sala, para a roda de conversa que se instalou e eu anotei o que eles falaram a seguir. Depois apresentei-lhes as frases, que reduzimos e agrupamos num texto e na sequncia construímos a poesia:
LIBÉLULA
A Libélula parece um helicóptero
só que bem pequenininho
nós corremos pela grama pra tentar pegar
acho que ali perto tem um ninho.
Algumas crianças pulam alto
quase pegam os insetos
mas não conseguimos alcançar
porque nós não sabemos voar!
2. Fale, por gentileza, sobre o seu livro “O Balé da Chuva”.
R.: É uma história de amor entre a mãe e a filha, que apresenta uma grande descoberta: o assustador barulho do trovão não pode ser desligado. A mãe mostra o som das gotas pingando na calha, caindo sobre as plantas e espocando na calçada. Com estes minutos de carinhosa atenção, o sono vem, o medo vai embora. O cheiro da terra molhada que a chuva de verão deixa exalar do quintal, desperta a poesia da infância que a mãe carrega dentro de si e compartilha com a filha. É uma história que mostra como o amor dá conta de refletir e responder perguntas sobre as coisas que nos fazem sentir medo.  O amor dissipa o medo.
3. Demonstra uma alegria imensa em seus comparecimentos nas escolas. Pode nos falar sobre como estar presente nesses encontros com as crianças e as professoras tornou-se importante em sua vida?
R.: Encontrar-me com as crianças e suas professoras nas escolas é entrar em diferentes mundos, todos com seu encanto particular. Há uma expectativa no ar quando eu chego: “ela é nova!”, e quando respondo às perguntas ouço comentários: “Ela tem pai e mãe”, “ela foi criança em Curitiba” e outras tantas surpresas que nos igualam na mesma cidade, com os desejos parecidos e a diferença de tempo de décadas de infância. É recorrente sentir-me uma menina que gosta de correr com eles pela grama, sentindo pingos de chuva, e de inventar histórias.
4. Você é uma contadora de histórias e dá gosto vê-la rodeada de crianças, como na I Bienal do Livro de Curitiba. Pode nos traduzir o sentimento que a invade nesses momentos?
R.: Nesta ocasião, eu fui convidada pela Biblioteca Pública do Paraná e apresentei textos criados com o intuito de incentivar a leitura do público mirim. O sentimento foi de responsabilidade e alegria por participar da I Bienal do Livro de Curitiba. Já a personagem Mila, que tem vida própria, com agenda e guarda-roupa, não cabia em si de contentamento.
O preparo de eventos exige atenção e cuidado para o público a que se destina, repertório com texto apropriado e grande parte das vezes com música. Sinto-me feliz por contribuir com ações de literatura na minha cidade. Eu amo Curitiba!

Respostas de Marciano Vasques
1 - Tudo Azul, Marciano Vasques?
R: Sim, sempre azul. A cada novo amanhecer. Principalmente quando o azul do céu se torna ciano, que é a cor do céu na manhã, por volta das 9horas. Tenho plena consciência de que as coisas não andam bem no mundo, ainda. É preciso muita luta dos oprimidos de modo geral, força e coragem para seguir em frente num cotidiano de tantas contradições e desavenças. Mas, cada um tem que preservar os seus mecanismos interiores de defesa. Eu, no caso, moro numa casa. Azul. O Nome “Casa Azul da Literatura” foi inspirado no livro “Uma Aventura na Casa Azul”, da Editora Cortez.
2 - Sua produção de periódicos é intensa. Como você organiza seu tempo e a inspiração para escrever as páginas: Casa Azul da Literatura, Casa Azul da Arte, Casa Azul da Educação, Ciano e a Revista Palavra Fiandeira?
R: Nem me dedico mais com tanta intensidade. O CIANO preciso atualizar, e o CASA AZUL que tinha postagens diárias, agora passa por longos períodos sem postagens. O da Arte me entristeceu muito. O da Educação, foi uma ilusão, pois cansei de pedir para que os professores escrevessem. PALAVRA FIANDEIRA agora ressurge reformulada, e semanal. Para mim é motivo de orgulho e alegria ter uma revista digital de literatura e artes, semanal. O tempo eu invento. A organização é acordar cada vez mais cedo. E atualmente, é verdade, não tenho tempo de sobra, e agradeço muito por isso.
3 - Em sua literatura infantojuvenil há diversos personagens da turma da bicharada: borboletas, focas, libélulas, entre outros, vivendo as mais empolgantes aventuras. Você incumbe os habitantes do mundo imaginário da missão de buscar respostas para as dúvidas do cotidiano dos leitores?
R: Certa vez, eu estava passando por um sofrimento intenso, e um amigo falou: “Pense na força dos bichinhos”. Isso realmente foi profundo para mim. E quanto aos personagens, eles são simbólicos da infância que vivi. Escapei de tudo que aí está, mas não sou contra o espírito da época quando se trata de grandes revoluções como a Internet. A infância reside em nós de forma absoluta. Não podemos fugir de nossos princípios. E nesse aspecto, os bichinhos em sua conversa poética, assim como os outros personagens, orientam o coração, que é de onde tudo deve brotar e se expandir. Ofereço os bichinhos e a literatura infantil como uma forma de repartir a felicidade da minha infância com as crianças. Aliás, felicidade existe para ser repartida. Na verdade, escrever é uma das formas de felicidade do Ser.
4 - Sapabela e Rospo são namorados, amigos filósofos, personagens que gostam de inventar palavras novas e lhes dar sentido, ou ainda, personagens que relatam suas certezas e dúvidas diante dos sentimentos com os quais se deparam?
R: Rospo é demasiado humano, alguém já disse. Na verdade, o personagem é uma trincheira contra a arrogância, sobretudo, a arrogância intelectual, para ele a mais terrível. E também a arrogância no mundo das artes, que afinal ela existe sim. O Sapo acredita na leitura, como única saída para o desabrochar libertador do pensar. Sapabela, é a mulher em toda sua força intelectual, e seu mundo extraordinário, no que ele tem de melhor. É vaidosa e não abre mão disso, para alegria do Rospo. É muito esperta, no bom sentido: ligeira e intuitiva. Não são namorados. São amigos, içados pela Filosofia, pela Poesia e numa fortaleza contra o obscurantismo. São éticos, e primam pela ética, que segundo eles, deve orientar a vida anfíbia. São personagens criados para o público infantil, mas que atingem em cheio o público adulto.