domingo, 2 de janeiro de 2011

Dona do tempo

Há alguns anos, quando as férias chegaram, tirei o relógio do pulso.
Incomodava a escravidão de horários, marcados pelos números que precisava conservar diante dos olhos e o calor no pulso.
Férias é temporada de se desadornar dos saltos, das calças vincadas, da maquiagem, da agitação que acompanha as tarefas antes de sair de casa. Férias é o tempo próprio de fazer coisas que dão prazer. A necessidade de correr só se justifica para não perder o horário do cinema!

Terminadas aquelas férias, encontrei alternativas para saber a hora certa, protelando dia após dia o desconforto de usar o relógio.
Houve uma fase da vida em que era inevitável permanecer refém dos horários para o trabalho, cursos, escola das filhas, balé, inglês, Kumon, marido, supermercado...uma agenda de mãe, profissional, esposa e dona de casa, que eu dava conta, igualzinho às propagandas de sabão em pó. Recorria ao relógio do carro, aos relógios digitais de ruas da cidade, ao computador e às pessoas. Um belo dia constatei que o relógio de pulso, mesmo sendo bonito, revelou-se obsoleto.

Na semana passada tomei uma nova resolução: desliguei o despertador do celular.  Agora estou em slow motion. Acordo com o sol no rosto ou durmo o quanto quero, até gastar o sono. Com a aposentadoria, a vida sem hora para acordar adquiriu a novidade do maior de todos os compromissos: aquele comigo mesma. Posso decidir o que me aprouver, sem pressa, solta! Nada mais das amarras, das horas contadas e da antiga rotina. Posso escrever com a Guida no colo ronronando, ou com a Miona passando por cima do teclado, desviando da xícara de café com leite. Posso dispor do tempo só para escrever ou sair quando tiver vontade. A melhor das novidades é a de ser dona de um tempo só para mim.