sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

FIAPOS DE MANGA


        O sítio situava-se a uns 10 km da pequena cidade do interior paulista. Nas férias de verão a família costumava visitar a avó paterna. A terra vermelha impregnava-se nos franzidos das roupas, debaixo das unhas, no couro cabeludo e nas curvinhas das orelhas das crianças.
 Pela estradinha de chão a égua Baia conduzia a carroça numa marcha cadenciada, impulsionando o corpo e balançando a cabeça, expressando “sim, sim”, indicando que a carroça estava pesada.  
O caminho oferecia a visão mágica de todos os tons de verde da plantação, dos pássaros caçando insetos, das abelhas em busca de flores e o cãozinho companheiro, trotando à frente e voltando-se de distância em distância para certificar-se de que a carroça o seguia. Às vezes latia sem propósito, talvez para ouvir seu próprio eco ou para contar alguma novidade do sítio para os que chegavam da cidade. Às vezes parecia que era para demonstrar autoridade de cão, ao espantar passarinhos ou ainda para avisar os de casa que a família estava chegando.
Após a travessia do riacho, avistava-se as centenárias mangueiras plantadas pelo bisavô e onde gerações de crianças da família brincaram,  mantendo a tradição.
Os pés de manga produziam frutos pequenos e doces, que eram colhidos e servidos como sobremesa. Chupava-se com as mãos, lambendo o sumo que escorria entre os dedos, pelos braços, pingando pelos cotovelos. Os fiapos alaranjados fixavam-se entre os dentes e as crianças brincavam de monstro. Rosnavam e corriam pelo terreiro, perseguindo-se com as mãos lambuzadas. Depois de muito correr, iam lavar-se na bica.  
A água escorria por ali sem que ninguém tivesse a decência de fechar a torneira. A princípio a menina estranhara que não havia nada na ponta daquela taquara para estancar a água, além do que a informação do sítio era diferente de Curitiba, onde se falava em evitar o desperdício.
        O cheiro de macela do campo que recheava os travesseiros permanecia nos cabelos por dias, depois que as férias terminavam. A cama oferecia um colchão de palha de milho, que chiava ao deitar-se e continuava chiando a qualquer movimento que se fazia, mesmo respiratório. Era um desconforto reconfortante, que só a casa do sítio da avó podia proporcionar.
        Os gatos persistentes, não compreendiam que pelo fato de haver visitas, sua presença não era tolerada. Mal acostumados, teimavam em retornar, marchando sobre as cobertas de pena de onde a tia os enxotava, desta vez às chineladas.
Na falta de fio dental, não restava alternativa. Antes de escovar os dentes, a neta retirou um fiapo da manga do pijama e passou entre os incisivos para finalmente livrar-se dos persistentes fiapos de manga.