sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Entrevista para IBEPEX



Em 27 de agosto de 2009 atendendo ao convite da Editora IBPEX, gravei depoimento para a conferência "A Escola e a Formação de Leitores". Trata-se de material audiovisual que será comercializado em bancas de jornais e revistarias para o público interessado.

IBEPEX - A literatura pautada na realidade, ou seja, apresentando problemas sociais, políticos e econômicos, acaba deixando para trás o lado lúdico da história?
MARILZA CONCEIÇÃO - Os autores didáticos, em sua maioria, e os professores devem reconhecer o texto literário e suas especificidades e intenções, se querem ser motivadores de leitura. A leitura é a ferramenta da cultura letrada e através dela adquirimos nossos conhecimentos.
É preciso diferenciar a linguagem referencial da notícia do jornal, que tem função informativa, a linguagem didática, que tem como função ensinar e a linguagem artística da literatura.
É preciso cuidar para não criar as crianças, num mundo de perfeccionismo, dentro de uma bolha, porque isto é um modo do início do século passado. É uma crença generalizada, de evitar o que é mau. Criança precisa ler os mitos e contos de fadas como eles são. Ler o bem vencendo o mal ajuda-as a dar conta de seus conflitos internos.
O que precisa parar é o estímulo ao consumo: o medo de deixar a criança desejar e de que isto faça mal. Temos de parar de correr e dar o que a criança pede. Criança precisa aprender a lidar com frustração.

IBEPEX - Pode relatar uma situação real que tenha vivido e que de certa forma trouxe para alguma obra?
MARILZA CONCEIÇÃO - O escritor carrega seu caderno de notas para registrar as coisas pitorescas que lhe acontecem. Recortes de conversa, impressões, palavras que alguém e coisas que lê. Nosso cotidiano é povoado de crônicas e basta anotar. Nossa vida apresenta cotidianamente a coletânea de nossas crônicas.
Recentemente mudei para um apartamento no bairro em que cresci e observei as mudanças acontecidas numa das ruas, nos prédios onde nova arquitetura reveste a carcaça dos velhos prédios e abrigam as novas lojas. Na mesma calçada de antes, segui sobre os meus passos de menina.
Este cotidiano encanta sobremaneira o escritor, que vê na chuva, na procura alucinante dos pássaros por abrigo, sensações da infância e revive os cheiros. "O cheiro, da maneira como os cheiros são capazes de fazer, transporta-me à infância por instantes." (O Balé da Chuva, p. 16)
O escritor registra as incursões entre o real e o imaginário que para ele são rotina de vida e material para suas crônicas, contos e poesias.
Com um olhar poético e crítico, trabalhando a linguagem, percebendo distâncias, o escritor atinge o leitor que, algumas vezes tem a sensação de identificação e chega a pensar que o que leu foi escrito para ele.

IBEPEX - Quem nasceu primeiro a escritora ou a contadora de histórias?
MARILZA CONCEIÇÃO - Começou com a leitura. Nasceu primeiro a leitora, depois a contadora de histórias, ainda jovem e mais tarde a escritora. A literatura coloriu minhas idéias que brotam do coração, das vontades que impulsionam o meu ser e do entendimento da minha criticidade.
Então saem pelos dedos digitando, escrevendo e desenhando no papel. Saem declamadas no formato das poesias que meu mundo interior inventa.
A literatura é marca positiva, não tenho dúvidas, pois sou coloridamente atingida por ela.

IBEPEX - O que é mais difícil, escrever uma história ou contar uma história?
MARILZA CONCEIÇÃO - São situações importantes de encantamento.
Contar exige que se conheça a história sendo fiel ao texto, principalmente se for um clássico. Repertório é enriquecido com leituras.
Escrever é mais elaborado. Histórias inventadas carecem de vocabulário, evidentemente adquirido através das leituras. É exercício de imaginação e demanda pesquisa. A pesquisa é companheira da escrita. E é apaixonante quando o escritor, medindo a tensão do enredo, segue o que a história exige. O autor expressa a vontade exata do personagem senão a bruxa aparece e o leva embora e ele desaparecerá... O enredo algumas vezes se resolve, ou se problematiza. O escritor avança um pouco e naquele momento isso é o bastante.

IBEPEX - E como aperfeiçoar o modo de contar histórias?
MARILZA CONCEIÇÃO - Lendo e contando. É verdadeira a afirmativa de que só se aprende a fazer fazendo. E para aperfeiçoar o ato de contar histórias é preciso capacitar-se, como se faz para executar o trabalho com responsabilidade. Amar o que se faz também aperfeiçoa a qualidade deste fazer. Educar não é uma característica apenas da literatura infantil, mas de toda literatura e de toda manifestação artística. Eu me educo quando leio Paulo Venturelli, Glória Kirinus, Marina Colassanti. E apreciando obras de arte, como as fotos de Sebastião Salgado, as telas de Carlos Colombino, a música, que vai de Mozart a Chico Buarque. O artista educa sem saber. E o faz pelo encantamento e prazer estético que toca o outro, levando-o a refletir, a ampliar o olhar para o mundo, estabelecendo novos sentidos. Cada artista trabalha com sua matéria-prima, no caso do escritor, a palavra. 
Não é função da literatura ensinar nada a ninguém, marcando a ferro e fogo, ditando normas de conduta, mas educar no sentido etimológico da palavra, conduzindo para fora do sujeito o que já existe nele, contribuindo para ampliar sua percepção de mundo por meio do belo. O artista é formador de mentalidade. 

IBEPEX - O que você prefere contar uma história ou escrever uma história?
MARILZA CONCEIÇÃO - O trabalho do escritor é como o de um artista plástico. A tinta pede uma outra cor determinada para compor o quadro, não é só ir pintando simplesmente. Assim é com as palavras. Todas podem ser usadas, porém, contextualizadas. Palavra foi feita justamente para ser dita, para revelar. “Palavra é para usar”, diz Manoel de Barros “dizer não é fazer, é um outro fazer, é só um descomportamento linguístico”.
O autor de literatura infantil tem como leitor uma criança com um universo menor que o seu, com limitações de visão de mundo, de sintaxe e de léxico. É um desafio produzir textos infantis, pois o manejo de palavras e idéias constitui-se em exercício de uma inspiração constante.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

1ª BIENAL DO LIVRO DE CURITIBA

27 de agosto a 04 de setembro de 2009 - Unicenp Expo Unimed Curitiba
Dentro do stand da Biblioteca Pública do Paraná,
Bruxa Mila contou várias histórias para as crianças.
Em nove dias dedicados à cultura e à integração,o livro é atração principal da Bienal. Para que o público tivesse oportunidade de se aproximar de autores e livros, a Bienal foi dividida em áreas de exposições e atrações, onde ocorrem
debates, sessões de bate-papo com personalidades do meio literário,
lançamentos, sessões de autógrafos e contação de histórias. http://www.portaldoservidor.pr.gov.br


A personagem Bruxa Mila com a pequena Vitória, Lídiamara Gross, diretora do departamento infantojuvenil da Biblioteca Pública do Paraná, a bibliotecária.


As crianças dão sua versão para o final da história


Apoio Cultural
http://www.bpp.pr.gov.br


Com Larissa, grande leitora 

domingo, 2 de agosto de 2009

ANDARILHA - CRÔNICA


-->
-->
                    ANDARILHA
                                  por Marilza Conceição

Sem querer, sem esperar, fugimos para o passado. Isso acontece, por exemplo, quando voltamos ao bairro da infância, às calçadas conhecidas, aos lugares onde brincamos. Tais lembranças costumam iniciar-se com a velha frase: “no meu tempo...”
Foi o que senti quando observei as fachadas que revestem as carcaças dos antigos prédios, onde novas lojas vestiram as velhas. Através da vitrine meu olhar revisitou o armazém de secos e molhados, cuja atração principal era o gato enrodilhado no balcão de madeira, ladeado pelo fumo de rolo e a balança Filizola. No canto do balcão, junto à parede, um vidro separava o pequeno armarinho, onde os fregueses se aviavam de linhas, sinhaninhas e botões. Comprava-se de um tudo: arroz, feijão, farinha, sabão, canecas esmaltadas...
A porta ao fundo, separava a loja da residência da família. Cruzando-a, deparava-se com a sala e o corredor que levava aos quartos, além de um inusitado alçapão que conduzia ao porão, onde ficava a cozinha. Descer aquelas escadas, para uma menina curiosa, era motivo de alegria, tão bom quanto receber um prêmio. Nas vezes em que estive à mesa com as crianças da casa, observava sorrindo, quando alguém as descia: primeiro apareciam uns pés, depois pernas, corpo, mãos no corrimão e a cabeça. Pronto, estava aparecida a pessoa. Para os garotos da casa isso era tão corriqueiro, que retomavam suas lições no mesmo instante. Lembrei do dia  em que morreu o avô e das horas durante o velório, que não me foram pesarosas, pelo contrário, possibilitou uma investigação por todos os cômodos da casa de maneira quase invisível. A visita por quartos atapetados, os estofados e o banheiro com banheira me fizeram concluir o quanto eram ricos. 
O barulho do trânsito foi o desfecho e a lembrança diluiu-se, por isso senti saudades. Os olhos focaram calçados e bolsas a preços convidativos enfeitando a realidade. Do devaneio de poucos instantes, tempo que se demora para olhar uma vitrine, voltei para onde nada mais daquela vida existe. Só memórias. E num desses zooms que a imaginação faz, retomei o presente e caminhei na calçada sobre meus passos de menina. 
Mas onde estarão as pessoas que viveram aqui? Por certo a herança foi dividida depois da venda do patrimônio. Isso é muito comum. As pessoas querem morar em novos prédios, com portaria 24 horas e câmeras vigilantes, que a segurança das cidades exige. E as novas fachadas, de gosto por vezes duvidoso, esconde a beleza das antigas, o que é uma pena.
Constatei, por conta da pureza da infância, que por ser distante, nos parece tão mais feliz, como somos tocados pelas visitas ao passado, quando a memória reconhece cheiros, sons e objetos, tentando deslocá-los numa lembrança meio nublada. É um déjà vu que não se esgota em si mesmo, segue grudado em nós e nos forma quem somos. 
Exatamente por sonhos quase reais como esse, é que inventamos a nostalgia.